NewsRoom

Entrevistas

Entrevistas .

Newsroom .

By Isabel dos Santos .

A minha paixão, a minha missão, é ser uma empreendedora

Reuters – Muitas pessoas gostariam de ter a oportunidade de lhe perguntar: é claramente uma empreendedora muito bem sucedida e é também verdade que é a filha de um dos líderes mais importantes de um Estado muito importante. Como é que encara isso?

Isabel dos Santos – Há uma mensagem clara que quero deixar: uma coisa é a tua vida familiar, que são as pessoas que te criam, que te dão valores, que te educam, que se certificam que vais à escola e que farás o melhor que conseguires, que te encorajam a ir mais longe. Estas pessoas formam quem tu és. Como pais, podemos formar a pessoa, mas quando essa pessoa se torna num adulto, as escolhas que faz na vida dizem-lhe respeito a ela. Conheço excelentes pais, cujos filhos não fizeram as melhores escolhas e o contrário também. Assim, gosto de pensar que os meus pais formaram-me como sou, como pessoa. Mas as minhas escolhas profissionais e os riscos que tenho tomado, os negócios que tenho criado são fruto da minha própria visão e da minha vontade.

Se vens de um contexto empresarial, compreendes o valor das oportunidades e o valor das ideias. E por vezes as pessoas pensam que têm uma grande ideia e vão torna-la num negócio, mas isso não é verdade. Uma ideia não significa um negócio, uma oportunidade não significa um negócio. Quando desejamos começar um negócio, e acreditamos nisso e sentimos paixão, então corremos riscos.

A minha paixão, a minha missão é ser uma empreendedora. Adoro construir coisas, acordar de manhã, ter ideias, criar uma equipa à minha volta que me desafie, que me diga se a ideia é boa ou não, que recursos podemos reunir em conjunto. Adoro construir coisas e, no final do dia, acredito verdadeiramente que há muitas formas de resolver os problemas de África e de desenvolvimento: criar empregos, criar oportunidades e negócios é tão bom e importante como a política.

Em termos de oportunidades, Angola tem muitos recursos naturais e esses são, sem dúvida, uma oportunidade. Mas o que podemos mesmo valorizar é que nos últimos 15 anos houve um grande investimento em infra-estruturas. Atualmente temos uma boa rede de estradas, temos portos funcionais, temos aeroportos internacionais em funcionamento e temos uma rede de telecomunicações muito avançada. Por isso, hoje em dia, em termos de ambiente de negócios, acho que Angola é um excelente país para se olhar. Quando olhamos para a história de Angola, éramos um país que, até há 15 anos, estava em guerra e muito foi conseguido desde que houve paz. 
Mas gostava de voltar um pouco ao tempo da guerra. Angola era um país que estava sob um terrível conflito armado, foi provavelmente um dos piores conflitos do mundo. Depois conseguimos estabelecer a paz e tornámo-nos uma nação pacífica.

Passámos da guerra à paz, da noite para o dia, e depois da paz chegar não houve mais conflitos, não houve mais questões de segurança. Podíamos viajar, investir, as pessoas reconstruíram as suas vidas, começámos a ter proprietários, novos negócios, crianças a irem à escola… Toda essa normalidade não deve ser dada como garantida. Quando olho para o que foi construído em Angola, devo dizer que, enquanto angolana, fico muito orgulhosa. Fico orgulhosa porque hoje temos mais de 10 milhões de crianças no ensino, seja primário, secundário, universitário ou outra formação. Temos mais universidades agora do que em qualquer outra altura, construímos mais hospitais e clínicas do que nunca, temos uma rede de estradas funcional, qualquer pessoa pode pegar no carro e percorrer Angola de norte a sul, de este a oeste. Desenvolvemos portos, temos aeroportos modernos, podemos receber aviões de todas as partes do mundo. Investimos muito em infra-estruturas e acredito que essas infra-estruturas se estão agora a traduzir em crescimento e negócios.

Ainda recentemente, em 2006 ou 2007, Angola era uma das economias com crescimento mais rápido do mundo, não nos podemos esquecer. Não se pode tornar na economia com crescimento mais rápido do mundo sem confiança. E Angola construiu muita confiança.