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Entrevistas

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Lusa .

By Isabel dos Santos .

Experiência de Portugal com a crise devia ser aproveitada por Angola

A empresária angolana Isabel dos Santos afirmou à Lusa que a experiência obtida por Portugal e pelos empresários portugueses na última crise económica deveria ser aproveitada em Angola para definir “um plano” para sair da crise.

“Angola hoje tem uma crise económica profunda, estamos a passar um momento que eu diria difícil do ponto de vista económico, para as empresas isto é duro. Esta relação com Portugal pode ser muito útil, primeiro porque podemos partilhar da experiência que Portugal teve ao sair da crise”, afirmou a empresária, em entrevista à Lusa, à margem da visita que realizou nos últimos dias a Cabo Verde.

Empresária com interesses em várias e distintas áreas de negócio em Portugal e Angola, Isabel dos Santos sublinha a reação portuguesa à crise que levou em 2011 à intervenção financeira internacional e à forma como o país ultrapassou o período de assistência. Mas sobretudo a forma como as empresas “se reinventaram”.

“Mas mais do que as empresas, também partilhar experiências mesmo a nível da própria governação. Ou seja, criar um quadro, um plano de saída de crise [em Angola, que também pediu um plano de assistência financeira ao Fundo Monetário Internacional], porque é urgente que isso aconteça”, sublinhou.

“Nós, os empresários, sentimos muita dificuldade em continuar a trabalhar e investir em Angola”, admitiu, recordando que a aposta empresarial em Portugal começou há mais de uma década.

“Era um Portugal diferente, não é um Portugal de hoje. Foi só um bocadinho antes da crise, ou seja, apanhei se calhar a parte mais difícil em termos económicos em Portugal, mas sempre acreditei na resiliência da economia portuguesa, porque acredito que as empresas portuguesas têm essa capacidade de se transformar, de se adaptar”, apontou.

“Vi efetivamente que na altura da crise várias empresas foram inovadoras. Ou seja, não só apostaram na exportação, mas também em mudar os seus modelos de negócios. Obviamente houve setores que foram muitos afetados, aliás o setor da construção civil foi um desses durante a crise, mas hoje quem diria que há falta de boas empresas de construção em Portugal e trabalhadores, porque acho que está a haver um ‘boom’ imobiliário”, acrescentou.

Por isso, defende que a experiência de Portugal, que “teve de encontrar uma solução, de conseguir sair da crise, de reconstruir a sua economia” e de hoje atrair investimentos, tudo “isto em relativamente pouco tempo”, representa “um exemplo muito interessante” para Angola, até tendo em conta que são dois países com interesses económicos fortemente cruzados.

Questionada pela Lusa, a empresária diz que não consegue quantificar o investimento que já realizou em Angola até ao momento, por se tratarem de projetos a “longo prazo”.

“Comecei a trabalhar nos anos 90, posso dar alguns exemplos de investimentos feitos, nós investimos e isto é dinheiro privado, não é dinheiro do erário público, não houve aqui nenhum subsídio, não houve aqui nenhum aporte do Estado. Isto é pura e simplesmente investimento privado”, sublinhou, antes de apontar alguns exemplos de investimentos em Angola em que esteve envolvida.

“Nós investimos na maior rede de fibra ótica de Angola e estamos a falar de um investimento superior a dois mil milhões de euros (…) na indústria, numa das fábricas mais modernas, de ponta, de produção de cimento, estamos a falar de um investimento superior a 400 milhões de dólares [362 milhões de euros], (…) na indústria de bebidas, águas, refrigerantes e cervejas, e estamos a falar de um investimento de quase 200 milhões de dólares [181 milhões de euros]”, enumerou.

Garante que “a maior parte” do investimento que tem realizado “é em Angola”. Isto “porque acredito em Angola e em África”.

Isabel dos Santos quer Efacec líder internacional na mobilidade elétrica

A empresária angolana Isabel dos Santos afirmou à Lusa que quer transformar a portuguesa Efacec numa empresa “líder internacional” na área da mobilidade elétrica e que está atenta a novas oportunidades de negócio em Portugal nas novas tecnologias.

“O investimento na Efacec não foi um investimento fácil”, recordou a empresária angolana, que desde 2015 é acionista maioritária da Efacec, em entrevista à agência Lusa à margem da visita que realizou a Cabo Verde nos últimos dias.

“Só para ter a noção, a negociação em si decorreu durante quase três anos, foi uma negociação longa, complexa, porque a empresa estava a atravessar um período muito complicado”, explicou Isabel dos Santos, questionada sobre a aposta naquela marca portuguesa que opera nos setores da energia, engenharia e mobilidade, a qual, recordou, vivia então uma “situação financeira muito grave”.

Agora, garante, o objetivo é fazer da Efacec “um ‘player’ e um líder internacional” na área da mobilidade elétrica. Neste momento, o negócio da mobilidade elétrica representa 6% no total da faturação da Efacec, sendo que o grupo pretende que atinja os 15%, ou seja, perto de 100 milhões de euros.

Até fevereiro, a Efacec conseguiu triplicar a produção de carregadores rápidos e ultrarrápidos de baterias elétricas e lançou, entre os novos projetos, soluções de carregamento com armazenamento incluído para as áreas residencial e de frotas, estando ainda a trabalhar noutros produtos inovadores nesta área.

“Quando surgiu a oportunidade de investimento na Efacec não só olhei para ela como sendo uma empresa histórica, ou seja, que tinha conhecimento e um legado na energia muito importante, mas sobretudo uma boa base para pesquisa e desenvolvimento das tecnologias futuras. Quando entrámos na Efacec, uma das primeiras coisas que fizemos foi a reestruturação da empresa”, que “precisava de ser modernizada, precisava de ser mais eficaz na sua maneira de produzir, mas para além disso investimos também em mobilidade elétrica, construímos uma unidade elétrica nova”, apontou.

“Hoje, o grupo todo Efacec conta com quase 2.000 trabalhadores em Portugal, mas estamos presentes em mais 30 países”, acrescentou Isabel dos Santos, assumindo-se como uma empresária que “gosta de investir em tecnologia”.

“Gosto de pensar futuro, gosto de ver para onde é que as sociedades vão, como é que nós vamos viver no futuro”, admitiu.

Assegura que após a recuperação da empresa, a Efacec é hoje uma empresa internacional que aposta na mobilidade elétrica, mas que não prevê ficar-se apenas pelos carros elétricos.

“No futuro não serão só carros, haverá comboios elétricos, autocarros elétricos, camiões elétricos. Portanto, toda esta questão da mobilidade, como é que vamos carregar esses carros, que tipo de baterias vão ter, como é que vamos preparar as nossas cidades para receber essa tecnologia, é algo que me apaixona e nós estamos a fazer um grande investimento na pesquisa e desenvolvimento”, garantiu Isabel dos Santos.

A empresária angolana que lidera a Efacec aponta o objetivo de estabelecer parcerias com universidades portuguesas para, utilizando “o talento português” para desenvolver novas soluções nesta área.

“Eu gosto sobretudo de investir em tecnologia, realmente é a minha paixão. Tudo que sejam oportunidades que tenham a ver com desenvolvimentos tecnológicos, em tecnologia que pode ser aplicada à vida das pessoas, ou seja em que a tecnologia possa melhorar a vida das pessoas ou a gestão das cidades, ou mesmo o impacto no meio ambiente, conseguirmos mitigar o impacto do clima, são áreas das quais eu estou muito interessada e gostaria de investir e de olhar”, rematou, sobre novos investimentos em Portugal.

Uma aposta que, sendo angolana, pode beneficiar aquele país africano de língua portuguesa, tendo como ponto de partida os “500 anos de história em comum”, relação que em alguns momentos “foi difícil” e noutros “foi melhor”.

“Uma empresa angolana que trabalha em Portugal tem muito a ganhar, porque tem acesso ao ‘know-how’, tem acesso a um mercado que, do ponto de vista da maturidade, é diferente, está num nível de maturidade diferente do que o mercado em Angola”, apontou, sublinhando que esse “intercâmbio enriquece as empresas angolanas”, tornando-as “mais competitivas”.

“Portanto, esta relação Angola-Portugal, para mim, é uma relação única e vou continuar a apostar tanto em Angola, como em Portugal”, rematou.

Angola vive em “instabilidade” e precisa de mostrar que é um Estado de Direito

A empresária angolana Isabel dos Santos afirmou à Lusa que o atual clima de “instabilidade” em Angola não é de confiança para os investidores e que é necessário assegurar que é um Estado de Direito “com separação de poderes”.

“Estão a viver-se momentos difíceis, não há dúvida. Estamos a viver momentos de grandes dúvidas e o que é fundamental e importante é que se respeite o Estado de Direito. É muito importante que se respeitem as leis, é muito importante que não haja atropelos entre os três poderes, que as pessoas tenham confiança na Justiça”, começou por explicar a empresária, filha do ex-chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos.

Em entrevista à agência Lusa, à margem da visita que realizou a Cabo Verde nos últimos dias, a empresária mostrou-se preocupada com os vários casos judiciais, mediáticos, em curso ou em investigação atualmente em Angola, a generalidade envolvendo elementos próximos do anterior Presidente da República e já apelidados por alguma opinião pública, como a própria Isabel dos Santos reconheceu, como uma caça às bruxas.

“Esses processos não são fáceis. Hoje, a título de exemplo, depois da minha saída da Sonangol [presidente do conselho de administração entre junho de 2016 e novembro de 2017], houve vários relatos na ‘media’ de possíveis inquéritos, processos ou inquietações, mas foram na ‘media’. E aí nós vivemos num clima de especulação entre o que vem na ‘media’ e o que efetivamente acontece ou não na realidade, o que cria muita confusão. Era importante, era bom haver um bocadinho mais de clareza do que se está a passar, porque as pessoas sentem que há confusão, que há muita informação que não é clara”, apontou a empresária.

“Portanto, há aqui alguma instabilidade que inspira uma falta de confiança”, criticou.

Ao mesmo tempo, sublinha a preocupação com o pedido de renúncia ao cargo de presidente do Tribunal Supremo de Angola, apresentado este mês pelo juiz Rui Ferreira, que o próprio justificou com uma “campanha intensa e cruel de mentiras, deturpação de factos, intrigas, calúnias e insultos”.

“Como é que é possível haver campanhas de difamação ou de calúnia até ao ponto de um presidente de um Tribunal Supremo, que é um órgão importantíssimo, sentir a necessidade de não continuar no cargo que estava indicado para cinco anos. Eu acho que isso não é bom. Não transmite confiança aos investidores”, comentou Isabel dos Santos.

Considerada pela BBC uma das 100 mulheres mais influentes no mundo, Isabel dos Santos acrescenta que este episódio com Rui Ferreira – que, então juiz presidente do Tribunal Constitucional, deu posse a João Lourenço, em setembro de 2017, como novo Presidente da República – “não transmite confiança às pessoas” em Angola.

“Hoje este clima não é de confiança para os investidores poderem investir e para continuarmos a apostar”, sublinhou, insistindo que é urgente “assegurar às pessoas que existe um Estado de Direito” em Angola e “que existe efetivamente a separação dos poderes”: “Que não há intervenção de um poder legislativo com os outros poderes, isso acho que vai ser um mudança muito importante de paradigma”.

Ainda assim, garante que o processo de “transição eleitoral” em Angola – em 2017, após o pai, José Eduardo dos Santos, ter deixado o poder, ao fim de 38 anos – “foi pacífico”.

“E é um exemplo em África de democracia, que é possível termos eleições democráticas, é possível haver uma passagem de poder pacífica. Eu acho que aí, o ex-Presidente José Eduardo dos Santos esteve muito bem porque inspirou outros líderes africanos que África também tem que ter essa tradição. Para nós, tem que ser normal haver eleições, tem que ser normal a passagem do poder. Mesmo que ele vá para um outro partido”, disse.

Já sobre a governação em Angola, ao fim de dois anos de mandato de João Lourenço, a filha de José Eduardo dos Santos admite que o cenário é de uma “crise económica muito complicada”.

“Reparamos que a nossa economia desde 2017, 2018, 2019 entrou num ciclo muito negativo. Isto é preocupante. A mim preocupa-me. Eu gostava de ver uma economia mais positiva, gostava de ver algumas decisões a serem tomadas que possam mudar o quadro e que consigam levantar potencial que Angola tem e conseguir das aos angolanos oportunidade de terem uma vida melhor, uma vida boa”, sublinhou ainda.

Apesar deste cenário, Isabel dos Santos prometeu que vai continuar a investir em Angola – onde tem interesses na indústria, das bebidas aos cimentos, na distribuição e nas telecomunicações, entre outras atividades -, embora o faça agora de forma mais “tímida”, devido à crise: “Nós continuamos a investir. Este ano abrimos um novo estúdio, estamos agora a construir uma fábrica, que vai ser uma das maiores fábricas de vidro do país, estamos a olhar também para investimentos no setor agrícola. Continuamos a investir. É difícil investir hoje em Angola porque temos um problema de rentabilidade grande, o poder de consumo baixou, as pessoas compram muito menos do que compravam antes, as taxas de juros são elevadas”.

IVA chegou no momento “mais duro” da economia angolana

A empresária Isabel dos Santos, uma das maiores empregadoras em Angola, admitiu, em entrevista à Lusa, que muitas empresas não vão resistir à introdução do IVA no país, que acontece no momento “mais duro” da economia.

“O IVA [Imposto sobre o Valor Acrescentado] não apanha as empresas no seu melhor momento, também o poder de consumo diminuiu, fruto da própria desvalorização [do kwanza, mais de 50% face ao euro desde 2018], porque Angola ainda depende muito da importação, e obviamente que este impacto vai-se sentir”, observou a empresária angolana, em entrevista à Lusa à margem da visita que realizou a Cabo Verde nos últimos dias.

Após sucessivos adiamentos, desde 01 de outubro que Angola tem em vigor uma taxa única de 14% de IVA, sucedendo-se desde então centenas de reclamações e denúncias de especulações de preços de diferentes produtos.

Para Isabel dos Santos, a introdução do IVA em Angola acontece “no momento mais duro da economia”, num quadro em que a desvalorização do kwanza angolano já “dura há algum tempo” e quando as empresas “têm o seu balanço mais frágil”.

“Ou seja, em alguns casos houve um terço do balanço das empresas que desapareceu [devido à desvalorização do kwanza] (…) Uma empresa que tinha um milhão de euros de ‘stock’ no balanço, hoje tem 300 mil euros”, exemplifica, recordando que, por outro lado, “os custos são iguais”.

“Porque continua a ter que pagar rendas, tem crédito bancário, os juros continuam altos, a 15, 16, 17%, alguns dos financiamentos estão indexados ao dólar, portanto continuam a pagar o mesmo valor em dólares, mas que significa muito mais em kwanzas”, explicou.

Atualmente com atividade em Angola em áreas que vão das bebidas à distribuição, passando pelas telecomunicações ou pelos cimentos, entre outros, recorda que quando antes gastava nas suas indústrias o equivalente a 100 mil euros para importar matéria-prima, hoje tem de gastar o equivalente a 200 a 300 mil euros em kwanzas para a mesma quantidade.

É neste cenário que a empresária diz estar preocupada com a introdução do IVA: “Eu acho que algumas empresas não terão balanço para aguentar, acho que algumas empresas não vão conseguir resistir porque não vão conseguir colocar o produto ao preço certo”.

Além disso, recorda a importância que a economia informal, da venda nos mercados e nas ruas, ainda tem peso relevante em Angola, e que “não vai ser tão afetada” pela introdução do imposto.

“E a economia formal vai ser mais afetada pelo IVA. Portanto, vamos ver como é que isto tudo se vai adaptar. Eu acho que é importante formalizar-se a economia, é importante fazer um esforço no sentido de haver mais empresas formais, mais negócios formais, Pequenas e Médias Empresas”, apontou, dizendo que a “taxação elevada” para as empresas “desencoraja os próprios empreendedores” a legalizar os negócios informais em Angola.

No atual momento da economia angolana, Isabel dos Santos alerta ainda para o “elevado” desemprego, cenário que se agrava todos os dias face ao crescimento demográfico do país.

“Estamos a falar de um crescimento de 3% ao ano. Numa população de 30 milhões são 900 mil novas pessoas todas os anos. Ora, ao mesmo tempo que estamos a pensar em bebés e crianças, temos também que pensar que são jovens que entram para o ensino, são jovens que saem do ensino e jovens que precisam de emprego. Mas ao mesmo tempo temos uma dificuldade porque a economia está a decrescer, estamos com um crescimento negativo. Ou seja, a economia não tem capacidade de absorver e criar esta quantidade de emprego que é necessária”, ressalvou.

Por isso, defende que é necessário que Angola tenha uma política de emprego para a juventude.

“O emprego é fundamental. Eu aprendi em minha casa, com o meu esposo, que o trabalho dignifica o homem, o trabalho constrói o homem e constrói a mulher. E efetivamente os jovens têm que encontrar o seu destino e quem eles vão ser na sociedade pelo trabalho e aí ter a oportunidade de ter um primeiro emprego é chave”, sublinhou.

Garante que como empresária e apesar do atual período de crise económica, tem investido em Angola, também na formação de jovens.

“Temos duas academias, temos uma academia que é a sede, que é uma academia de retalho, onde os jovens aprendem profissões desde padaria, como trabalhar em peixaria, a serem gestores de ‘stocks’, a trabalharem com coisas complexas, como a gestão informática de armazéns. Criámos uma academia que forma cerca de mil jovens ao ano, e garantimos a esses jovens o primeiro emprego. Mas isso é um esforço que não podemos fazer sozinhos, é preciso que haja outras empresas a criar estas oportunidades”, concluiu.

Isabel dos Santos prepara investimento na economia digital em Cabo Verde

A empresária angolana Isabel dos Santos, acionista em Cabo Verde da operadora de telecomunicações Unitel T+, afirmou à Lusa que está a preparar um investimento na economia digital naquele país, um setor prioritário para o Governo cabo-verdiano.

Em entrevista à agência Lusa à margem da visita que realizou à cidade da Praia nos últimos dias, a empresária angolana recordou que o investimento em Cabo Verde “não foi, no início, fácil”, tendo em conta a realidade do país, que acabou por evoluir “muito e positivamente nos últimos anos”.

“Hoje há uma grande aposta para Cabo Verde se tornar uma ‘smart island’, uma ilha tecnológica, há uma grande aposta digital e efetivamente é nesse setor que temos estado a investir, investimos nas telecomunicações e hoje pensamos em investir também na economia digital, ou seja pensar soluções para negócios, soluções digitais que possam ser aplicados nos pequenos e médios negócios”, afirmou.

Sem adiantar mais pormenores, a empresária, que disse ter investido cerca de 100 milhões de euros nos últimos anos na economia cabo-verdiana, desde logo com a operadora de telecomunicações Unitel T+, refere que o objetivo do investimento que prevê é ter “soluções que seriam criadas cá em Cabo Verde”.

“Desenvolvidas com empresas tecnológicas cá e que depois poderiam ser vendidos para outros países em África, uma vez que muitas vezes as soluções digitais que são precisas para as nossas economias têm realidades um bocadinho diferentes das realidades europeias ou ocidentais. E acho que nesse sentido Cabo Verde é uma boa plataforma, um bom investimento, uma boa aposta. Há aqui alguma capacidade em termos de recursos humanos e realmente um grande interesse, um plano estratégico de ver Cabo Verde cada vez mais tecnológico”, afirmou Isabel dos Santos.

A empresária diz que o clima de negócios em Cabo Verde tem “evoluído de uma forma positiva” e assume que “hoje há um grande interesse” do país em “abrir mais a economia”.

“O Estado está a dar passos para se retirar da economia, está a fazer um grande programa de privatizações, por outro lado, é verdade que Cabo Verde é um país estável, é um país que tem paz, que tem uma boa governação, portanto, é um país, deste ponto de vista, interessante para os investidores estarem presentes e investir”, enfatizou.

Ainda assim, a empresária, considerada pela BBC como uma das 100 mulheres mais influentes no mundo, recorda que há ainda “muito a fazer” em Cabo Verde, desde logo a necessidade de “definir um plano a 10/15 anos” para projetar o desenvolvimento do país, mas que seja “sobretudo inclusivo”, envolvendo o setor privado.

“Uma das grandes questões sobre Cabo Verde é como assegurar a rentabilidade, ou seja para as empresas poderem ser rentáveis de forma a poderem ter capacidade de investimento, principalmente investimentos nas áreas como as tecnologias, por exemplo o 5G, que é um investimento extremamente caro (…) Tem que haver um cenário de negócio que forneça dinheiro suficiente, capacidade financeira suficiente para as empresas poderem investir”, apontou.

Com um plano a médio prazo e mantendo a aposta no turismo e noutras áreas estratégicas do país, Isabel dos Santos garante que Cabo Verde tem condições para no prazo de 10 anos estar nas 50 melhores economias do “Doing Business”, o ‘ranking’ do Banco Mundial sobre a facilidade de fazer negócios, em que atualmente ocupa a 131.ª posição.

“Não são coisas difíceis de conseguir, acho que já há grandes passos que foram dados pelo Governo, desde a vontade de digitalizar a governação, o governo eletrónico, introduzir uma série de melhorias tecnológicas. Ou seja, há esta vontade e acredito que isto podia mudar muito e influenciar Cabo verde no futuro breve”, concluiu.

Isabel dos Santos diz que se endivida para investir e que não usa dinheiro público angolano

A mulher mais rica de África, a empresária angolana Isabel dos Santos diz que as recorrentes dúvidas sobre a origem dos seus investimentos resultam de “narrativa negativa”, alegando que se tem endividado, para poder investir, sem recorrer ao erário público angolano.

“Trabalho com bancos em Cabo Verde, com bancos em outros países africanos, bancos que nos apoiam, que acreditam nos projetos, que acreditam na validade dos projetos que nós propomos. Portanto, tenho muitas dívidas, tenho muito financiamento por pagar, as taxas de juros são elevadas, nem sempre é fácil também ter essa sustentabilidade do negócio, para conseguir enfrentar toda a parte financeira dos negócios, mas também boas equipas e trabalhamos para isso”, afirmou a empresária, filha do ex-Presidente da República de Angola José Eduardo dos Santos, em entrevista à agência Lusa à margem da visita que realizou nos últimos dias a Cabo Verde.

Questionada pela Lusa sobre as recorrentes dúvidas sobre a origem dos seus investimentos, a empresária angolana, com interesses na indústria, no setor da energia, na banca, na distribuição e retalha e nas telecomunicações, entre outras áreas, sobretudo em Angola e Portugal, afirma que está habituada a passar por complexos processos de avaliação de idoneidade, até tendo em conta as relações, nos negócios, com parceiros internacionais.

Algo que, diz, acontece “principalmente” quando se trata de “um empresário vindo de África”: A “quem são pedidas inúmeras informações sobre como é que vai financiar o seu negócio, qual a origem dos seus fundos, que planos é que tem para o seu negócio, etc. Portanto, hoje em dia, todas as empresas de uma forma geral têm esses pedidos, são pedidos normais. No meu caso, eu até tenho mais [pedidos de esclarecimento] do que outras empresas porque obviamente há a questão das pessoas politicamente expostas e é certo, há sempre atenção de tentar perceber como é que são fundados e financiados os negócios”.

Atualmente, diz que trabalha com mais de 15 bancos em todo o mundo e que não se preocupa com as dúvidas que habitualmente se colocam sobre os seus investimentos.

“Quando há rumores que falam de erário público, é falso. Felizmente nunca trabalhei com o erário público. Eu gosto de trabalhar com o mercado, com o setor privado, eu gosto de fazer um produto que as pessoas queiram comprar, mais queiram comprar porque ele é bom e tem um bom preço”, garantiu, apontando casos como o banco BIC ou a operadora de telecomunicações Unitel como exemplos de projetos privados que lançou com sucesso.

“Eu não tenho preocupações com as dúvidas [sobre a origem dos investimentos], porque como digo, sempre fui alvo de escrutínio e é normal, não é algo que me preocupa, tenho parcerias com empresas internacionais que estão obrigadas a um nível mais elevado de governança, antes de trabalharem com um parceiro têm que verificar que esta pessoa é idónea e que representa e que é aquilo que diz ser, trabalho com grandes grupos mundiais, com grandes multinacionais, com consultoras que são do top cinco mundiais, trabalho com bancos, com banca comercial”, enfatizou.

Ainda assim, observa que há mais suscetibilidade no mundo ocidental para aceitar “a ideia de que se o dinheiro vem de África, ou de empresários africanos ou angolanos, se calhar é duvidoso”.

“Muitas vezes isto está ligado ao preconceito. Existe um preconceito sim. Hoje acho que é muito à base de falta de informação. Quando olhamos para os ‘media’ hoje, a narrativa de que se fala de África é muito negativa, e praticamente de África só falamos de política, de governos, de guerras, de conflitos, de desastres. Raramente falamos de empresas, empresários africanos são muito pouco conhecidos, ou seja, os atores das economias africanas ainda são poucos conhecidos na Europa e no Ocidente. E isso traz um nível de desconfiança. E essa desconfiança, claramente, não é só comigo”, garante.

Isabel dos Santos, de 46 anos, foi considerada pela BBC como uma das 100 mulheres mais influentes no mundo e pela Jeune Afrique como uma das 100 pessoas mais influentes em África.

Na entrevista à Lusa, insistiu em recordar que o percurso como empresária começou em Angola, há mais de duas décadas. “Eu gosto que as pessoas se lembrem que eu não comecei a trabalhar ontem, não comecei a trabalhar em 2010, comecei a trabalhar nos anos 90, portanto é um percurso muito, muito longo, e ao longo deste percurso nós vamos construindo reputação, vamos construindo relações, com empresas, com bancos, e vamos crescendo, vamos sendo apoiados e efetivamente é assim que eu tenho que trabalhar”, sublinha.

A empresária diz que a chave do seu sucesso, tal como o de outros empresários, incluindo portugueses, foi o forte crescimento da economia angolana de 2002 a 2017, precisamente quando começou a investir em Angola.

“E tivemos sorte. Angola cresceu. A economia angolana de 2002 a 2017, durante 15 anos, teve um crescimento médio de quase 8-9%”, recordou, apontando que o Produto Interno Bruto (PIB) angolano cresceu, neste período, quase 900%, de 30 mil milhões para 130 mil milhões de dólares.

“Exatamente neste período houve também muitos empresários e muitas empresas portuguesas que ganharam dinheiro e lucro em Angola, centenas de milhões de euros, e estas questões nunca são postas em causa. Por isso, é preciso também não ter dúvidas que as empresas e os empresários angolanos neste mesmo meio ambiente de negócio obviamente também ganharam dinheiro, também trabalharam, investiram… Aliás, os investimentos estão presentes, os postos de trabalho são óbvios, os locais estão construídos, não são investimentos abstratos”, rematou.

Isabel dos Santos diz que foi “salvar” a Sonangol e nega transferência após exoneração

A empresária angolana Isabel dos Santos afirma que aceitou liderar a Sonangol porque era “preciso salvar” a petrolífera e não para “resolver problemas financeiros” seus ou da família, negando ainda ter ordenado qualquer transferência depois de afastada de funções.

Em entrevista à agência Lusa, à margem de uma visita que realizou nos últimos dias a Cabo Verde, Isabel dos Santos revelou pela primeira vez a cópia de um comprovativo da ordem de pagamento para a transferência da Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola (Sonangol) a favor da Mater Business Solutions, nos Emiratos Árabes Unidos, efetivada com data de 15 de novembro de 2017 e ordenada antes de ser exonerada.

“Eu acho que houve um aproveitamento e má-fé por parte do meu sucessor [Carlos Saturnino], que quis em algum momento, por razões muito próprias suas, eu acho que foram razões pessoais não foram razões empresariais, criar um clima de desconfiança sobre a anterior gestão”, criticou Isabel dos Santos, garantido que apesar de efetivada naquele dia, a transferência internacional não foi imediata, tendo a ordem sido dada a “13 ou 14 de novembro”, ficando em processamento até ao dia 15 de novembro, dia em que foi afastada.

“E nós não tínhamos a mínima ideia que não haveríamos de continuar na Sonangol, e em que data seria dada ordem de exoneração. Aliás, fomos apanhados de surpresa. Não era de não esperar, porque sabíamos que talvez, possivelmente, teríamos perdido a confiança do acionista e que o novo Governo podia ter outros planos para a Sonangol”, recordou.

Em 28 de fevereiro de 2018, Carlos Saturnino, então presidente do conselho de administração da Sonangol, denunciou a existência de uma transferência de 38 milhões de dólares (34,4 milhões de euros) feita pela administração cessante, liderada por Isabel dos Santos, após a sua exoneração.

“Eu quando fui para a Sonangol fui com um grande sentido de dever e sobretudo com um espírito de missão. Eu já trabalho há mais de 20 anos, já construi vários negócios de maneira bem-sucedida, portanto, com certeza que não iria para a Sonangol para ser o meu primeiro emprego ou para efetivamente resolver problemas financeiros meus ou da minha família”, afirmou.

Em 15 de novembro de 2017, cerca de 18 meses depois de nomeada pelo ex-Presidente José Eduardo dos Santos, pai da empresária, Isabel dos Santos foi exonerada do cargo de presidente do conselho de administração da Sonangol por João Lourenço, que tinha assumido as funções de chefe de Estado angolano há cerca de um mês e meio e que no mesmo dia nomeou para o cargo Carlos Saturnino.

Em causa naquela transferência, assegura agora Isabel dos Santos, estavam trabalhos de consultoria encomendados no âmbito da reestruturação da Sonangol: “[A transferência] não foi efetuada depois de eu ter saído da Sonangol, de forma alguma, e sobretudo eram sobre trabalhos que tinham sido feitos, que estavam realizados e sobre faturas que eram faturas antigas. Faturas do mês de setembro, faturas do mês de outubro, faturas do mês de agosto”.

“Isto nem sequer seria possível, eu nem fisicamente tinha acesso aos edifícios, aos computadores”, garantiu.

Em março de 2018, a Procuradoria-Geral da República de Angola anunciou a abertura de um inquérito para apurar as denúncias feitas por Carlos Saturnino (afastado da Sonangol em maio último), mas não foi conhecido qualquer desenvolvimento desde então.

Ainda assim, a empresária afirma que “independentemente” de quem liderava a Sonangol, estes “são contratos que existem”, são “contratos com a empresa” e que é por isso que “são honrados”.

Sobre a decisão de aceitar, em junho de 2016, o convite do pai e chefe de Estado de então, José Eduardo dos Santos, para liderar a petrolífera angolana, garante que ficou a dever-se à necessidade de “salvar a empresa”, mas que representou “algum custo pessoal e reputacional”.

Ainda assim, diz que voltaria a aceitar o desafio: “Voltaria porque acredito que nós fizemos um trabalho extraordinário. Nós quando chegamos à empresa não havia dinheiro para pagar salários. Eu, como angolana, sempre admirei a Sonangol, achei e acreditei que era a maior empresa do nosso país, que era realmente o nosso pilar, era a empresa que nos inspira, era o nosso orgulho, e eu não tinha noção efetivamente que não havia dinheiro sequer para pagar salários”.

Acrescenta que quando chegou à Sonangol a petrolífera tinha uma dívida de quase 20.000 milhões de dólares (18.100 milhões de euros) e que os contratos com a banca estavam a entrar em incumprimento. Aponta mesmo o exemplo da carta de “um dos maiores bancos de Inglaterra” que recebeu ao terceiro dia em funções, dando 48 horas para um pagamento.

“Pagamento que não havia. Nem imagina, eu tive de me enfiar num avião, ir fazer uma reunião de urgência com este banco e dizer: ‘olhe, dê-me tempo. Preciso de 15 dias, preciso de 10 dias, deixe-nos encontrar soluções’. E trabalhamos muito arduamente com o setor financeiro, trabalhamos muito arduamente com a banca, trabalhamos muito forte na restruturação”, disse, garantindo que nos 18 meses em funções, no âmbito da reestruturação da maior empresa angolana, cortou 40% nos custos e reduziu a dívida para metade.

“Fizemos uma diferença muito grande. Portanto, não tenho arrependimento nenhum”, assumiu.

A exoneração de 2017 explica com a anunciada privatização da petrolífera estatal angolana: “O Governo pretende privatizar a Sonangol, nós não fomos um ‘board’, um conselho de administração, que foi colocado para privatização, nós fomos colocados para reestruturação. Efetivamente, hoje entendo que o projeto era privatizar a Sonangol e nós também não teríamos sido, eu pessoalmente não teria sido, o ‘board’ certo para esse trabalho”, disse ainda.

Além da reestruturação do grupo Sonangol, garante que em 18 meses de gestão foram feitos, com o apoio da consultoria externa, vários projetos, como a criação da Agência Nacional de Petróleos, entretanto criada.

“É uma iniciativa que partiu de mim, da minha equipa (…) e foi implementada. Esta aí hoje e existe”, afirmou.

“Eu faço esta entrevista hoje porque emprego muita gente e gosto de pensar que eu tenho responsabilidade no ganha pão de muitas famílias, portanto é importante que as coisas sejam postas claramente e que seja visível que nós trabalhamos na Sonangol com espírito de missão, com espírito de salvar a empresa, e conseguimos. A empresa está lá”, concluiu.