NewsRoom

Entrevistas

Entrevistas .

Newsroom .

Africa .

By Isabel dos Santos .

Para uma sociedade melhor é importante retribuir e ajudar os outros

Today News Africa – De que forma os homens da sua vida (pai, marido, outros) apoiaram o seu crescimento como líder feminina nos negócios e que conselho pode dar aos homens, para ajudar a contribuir para o crescimento das lideranças femininas?

Isabel dos Santos – Eu percebi bastante tarde na vida que a minha educação não era comum para uma rapariga Africana. O meu pai criou-me exactamente da mesma forma que aos meus irmãos. Nunca me disse: “as meninas não fazem isso” ou “as meninas não podem ser aquilo”. Aos 18 anos, quando fui para a universidade, eu estava indecisa sobre o que seguir e lembro-me que o meu pai me convenceu a ser astronauta ou cientista. Nunca me passou pela cabeça que isso seria algo que as meninas africanas não fariam ou não poderiam ser.
Acabei por escolher estudar Engenharia na Universidade e havia apenas uma outra rapariga (chinesa) na minha aula.

Eu nunca me lembro de ouvir coisas como: “Não te preocupes, os teus irmãos vão trabalhar e cuidar de ti”, ou “tu és menina; um dia vais casar e encontrar um bom homem para cuidar de ti”. Eu fui educada a fazer o meu próprio caminho na vida e nunca depender de qualquer homem fosse ele pai, irmão ou marido.

Isso construiu em mim um forte espírito de independência. Os meus pais insistiam numa educação voltada para a confiança e para a competitividade.

Como mulher, tive a sorte de ter encontrado e casado com um marido de mente aberta que também é africano e que nunca viu a minha carreira pessoal ou o meu sucesso como uma ameaça. Isto permitiu-me ter o tempo e o espaço que eu precisava para dedicar ao meu trabalho.

O meu marido tem sido um pilar ao longo da minha carreira – crucial para o meu sucesso. Ele sempre me deu conselhos honestos e de encorajamento. Ele é um grande pai para os nossos quatro filhos, estando lá para eles quando estou ausente, durante os meus longos horários de trabalho e viagens ao estrangeiro.

O conselho que eu daria aos pais é estabelecer muito cedo um sentimento de confiança e responsabilidade nas suas filhas. Ensine-as a defenderem-se e a confiar apenas em si mesmas. Ensine as competências necessárias de vida. Ensine a sua filha as habilidades necessárias para gerir melhor as suas finanças, o seu salário e os seus investimentos com sabedoria. E, além disso, é fundamental tratá-la como uma pessoa independente e um ser humano inteiro com um verdadeiro papel na sociedade, em igualdade com o dos homens.

Today News Africa – Numa sociedade dominada por homens, quais são alguns dos maiores desafios que enfrenta como mulher de negócios?

Isabel dos Santos – No mundo dos negócios, há pouquíssimas mulheres e é sem dúvida uma sociedade muito dominada pelos homens. Discriminação e preconceito existe. Em várias ocasiões em reuniões de negócios, aconteceu-me que a outra parte com quem estou a negociar, procura o meu assessor ou advogado do sexo masculino, para ver o que ele tem a dizer, embora seja eu a proprietária ou a acionista do negócio e já tendo transmitido claramente minha decisão.

As suas opiniões são muitas vezes antecipadas apenas pelo facto de ser mulher. Também me perguntam frequentemente: “qual o negócio do seu marido? As pessoas simplesmente assumem que, como mulher e mãe, somos menos capazes de negociar ou de construir os nossos próprios negócios. O mais difícil para as mulheres é obter financiamentos ou garantir investimentos para os seus negócios, já que o sistema financeiro tem “mais confiança” em projectos liderados por homens.

Apoiar projectos sociais sempre foi uma prioridade. Desde o início, criei nas minhas empresas uma área específica dedicada a programas de responsabilidade social e patrocínios. Patrocinamos várias instituições de solidariedade e lançamos também os nossos próprios programas.

 

Today News Africa – Existem desafios específicos que enfrenta enquanto mulher africana?

Isabel dos Santos – Sendo muitas vezes a única pessoa negra numa sala … é um desafio. As pessoas tendem a tratar-nos de forma diferente. África, infelizmente, tem sido percepcionada de uma maneira muito pobre.
A narrativa em torno das economias africanas e dos negócios africanos não é favorável e é cheia de conotações negativas. África precisa de um marketing melhor, para promover as suas histórias de sucesso. Há muito pouco conhecimento das empresas africanas ou dos principais intervenientes empresariais.

Today News Africa – Como é que mantém a força para continuar?

Isabel dos Santos – Como africana, tive a sorte de receber uma educação superior. Assim sou privilegiada e isso proporciona-me um grande sentido de dever, para fazer mais pelos outros, pelo meu país e pelo nosso povo. Para inspirar e ajudar os outros a construir os seus sonhos, construir os seus negócios, conseguir bons empregos e educar os seus filhos.

Today News Africa – Que oportunidades existem actualmente em Angola, ou noutros países do continente, para mulheres que desejam ganhar dinheiro e construir empresas de sucesso?

Isabel dos Santos – As oportunidades para mim sempre começam com uma pergunta simples: o que sabe fazer? Em que é que é bom? Só assim encontrará a sua oportunidade.

Angola, em particular, tem muitos recursos inexplorados: de minerais e agricultura, indústria de serviços e turismo. Cada um destes tem um nível diferente de complexidade, de necessidades de investimento, mas todos são pontos de partida fortes e possíveis.

Quanto mais complexo o negócio, mais exigirá que sejamos experientes, qualificados e com maior capacidade para investir. Hoje, o sector bancário angolano oferece financiamento e empréstimos para bons projetos e negócios. É verdade que as taxas de juros ainda são altas e que algumas garantias colaterais ou parciais são necessárias, bem como algum capital inicial (poupança ou terreno) por parte dos investidores. Angola importa mais de US $ 9 biliões em bens alimentares e de consumo. Hoje, África como um todo, continua a importar grandes quantidades de produtos e bens de consumo.

Uma boa oportunidade em África seria a produção em escala de produtos agrícolas, pecuários ou manufaturados. Também nalguns países, há uma crescente classe média com um rendimento disponível crescente e, assim, o turismo interno, como pousadas, e bed and breakfast rural também constituiriam uma oportunidade de desenvolvimento para pequenas empresas familiares. O ensino privado de boa qualidade e as clínicas privadas de cuidados de saúde são também sectores de potencial crescimento dos negócios em África, uma vez que as pessoas querem investir na educação dos seus filhos.

As oportunidades maiores, ou seja, de investimentos mais intensivos em capital estão nas indústrias, como o vidro ou o aço – para a construção – ou a exploração de minérios.

Today News Africa – Como podemos começar?

Isabel dos Santos – A sua melhor aposta é você mesmo, as suas habilidades, a sua motivação e a sua paixão.
Devemos ter uma ideia, elaborar um plano de cinco anos, preparar o seu capital, fundamentar as suas ideias em detalhe, ser persistente e associar-se a uma equipa de confiança. Mantenha a paixão e execute também, não delegue.

Today News Africa – Que dicas e truques pode partilhar com as mulheres jovens sobre a gestão do tempo e das diferentes responsabilidades, tendo sempre em atenção o seu bem-estar?

Isabel dos Santos – O tempo infelizmente é uma daquelas coisas que nenhum de nós tem o suficiente! Acabamos sempre por sacrificar alguma coisa, seja tempo com a nossa família, os nossos amigos ou a nossa vida social. Ou ainda menos tempo no ginásio!

É um desafio. As prioridades são fundamentais. Tem que se alocar tempo às suas prioridades e estas devem corresponder às suas expectativas de vida.

Today News Africa – Por ser a mulher líder de negócios de África, muitas pessoas devem pedir-lhe apoio para os seus projectos sociais. Tem alguma maneira formal de retribuir?

Isabel dos Santos – Apoiar projectos sociais sempre foi uma prioridade. Desde o início, criei nas minhas empresas uma área específica dedicada a programas de responsabilidade social e patrocínios. Patrocinamos várias instituições de solidariedade e lançamos também os nossos próprios programas.

A minha visão é que para termos uma sociedade melhor é importante retribuir e ajudar os outros. Hoje, retribuir faz parte da cultura das nossas empresas e temos milhares de funcionários que são voluntários e ajudam a activar os nossos programas na comunidade.

Criamos uma cultura que envolve as pessoas e cada um tem a oportunidade de desempenhar um papel activo nos projectos sociais. Financiamos e gerimos um vasto e diversificado programa de iniciativas de responsabilidade social, tais como: apoio a um hospital infantil pediátrico, onde somos um dos maiores doadores e parceiros, financiamos e realizamos a maior campanha nacional para a luta e prevenção contra a malária, patrocinamos uma instituição de solidariedade que promove o acesso a água limpa em comunidades pobres. Com o apoio dos nossos voluntários, realizamos um programa de “dia especial” para crianças carentes ou doentes, no qual se realizam actividades especiais e aventuras divertidas, para mais de 10.000 crianças em todo o país, proporcionando-lhes experiências que nunca teriam. No ano passado, iniciei o primeiro telethon de Natal, na rede nacional de televisão, que nos permitiu estabelecer parcerias com várias empresas e assim responder às necessidades das comunidades.

Encorajei todos os nossos funcionários a fazer parte dos nossos programas de responsabilidade social, como voluntários, pois acredito que precisamos multiplicar os nossos esforços porque junto somos mais fortes. Pessoalmente, estou muito envolvida como doadora, mas também participo pessoalmente nessas iniciativas, seja através da organização de projectos sociais, seja lidando diretamente com a comunidade. Este é um compromisso firme que tenho feito para ajudar a melhorar a nossa sociedade.

Today News Africa – Como decide que causa apoiar e quando deve dizer não?

Isabel dos Santos – Eu escolho apoiar as iniciativas que estão focadas nas necessidades das crianças, na educação e saúde. A luta contra a malária é uma causa que eu sigo muito perto do meu coração e estou muito empenhada em ajudar a sua erradicação.

O meu compromisso é um dia ver África cheia de empreendedores, de pequenas e grandes empresas, com iniciativas ambiciosas, cheias de perseverança, apoio e oportunidades. Na minha visão, acredito que temos uma verdadeira alavanca para a mudança em África. E não estou a falar dos nossos recursos, mas da nossa educação. A qualidade da educação que podemos dar aos nossos filhos determinará o futuro da África. Para qualquer um que sonha em mudar África a educação é a chave. Devemos educar as nossas raparigas, uma vez que serão elas as futuras mães e uma enciclopédia de conhecimento para os seus filhos.