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Entrevista CNN .

By Isabel dos Santos .

Podemos referenciar Angola como uma história muito positiva de uma transição positiva que foi pacífica

Isabel dos Santos – Primeiro gostaria de dizer que não trabalho com a minha família, nunca trabalhei. Sou uma empresária estabelecida, fundei a minha própria empresa aos 21 anos. Sempre fui muito independente. Quando comecei a trabalhar, comecei com um pequeno negócio. Era um pequeno negócio, com muito pouco capital e depois cresceu, à medida que aprendia, que investia mais e que o meu negócio tinha mais sucesso.

CNN – Algumas pessoas acreditam que o nepotismo teve um papel importante no seu sucesso. Consegue dizer honestamente que a principal razão do seu sucesso não foi a influência do seu pai?

Isabel dos Santos – Quando se trabalha num ambiente privado como eu trabalhei não interessa quem os nossos pais são. A questão é: será que consigo criar um produto ou um serviço de qualidade e com o preço certo? Quando fundámos o banco e nos emitiram a licença bancária fomos a 16.ª licença bancária a ser emitida [em Angola]. Abrimos um banco de retalho, éramos os melhores na área e agora somos o segundo maior banco [em Angola]. Ninguém forçou nenhum daqueles consumidores a abrir uma conta no nosso banco. Nesse sentido, a minha resposta é: é um mercado competitivo, há concorrência, as pessoas têm o direito a escolher e escolhem o produto ou serviço que preferirem.

CNN – O facto de acreditar que o seu sucesso é merecido, que trabalhou para isso, criou o produto certo como disse, e o actual Presidente [da República] chega e remove-a da sua posição na Sonangol. Estou apenas curiosa: dado que o actual Presidente foi essencialmente ensinado pelo seu pai, preparado pelo seu pai, sentiu-se atraiçoada?

Isabel dos Santos – Nós entrámos na Sonangol, a nova direção da Sonangol foi nomeada em Junho de 2016, com um objectivo muito específico: a empresa estava em estado de pré-falência. Era, essencialmente, uma questão de balanço. Vamos olhar para o balanço e vamos torná-lo mais sólido, mais robusto. E fizemos isso. Tivemos 17 meses para o fazer. Podê-lo-íamos ter feito melhor, se tivéssemos tido 24 meses? Provavelmente. Mas penso que deixámos a empresa numa boa situação.

CNN – Tem um sentimento de dever cumprido, mas qual foi a sua reacção quando foi retirada da sua posição, uma posição em que diz que trabalhou tão arduamente?

Isabel dos Santos – A determinada altura talvez a visão de transformação tenha mudado e o novo governo tinha outras prioridades e as suas prioridades estão alinhadas com outras áreas. Perdemos o apoio dos accionistas e transformar uma empresa como a Sonangol sem o apoio dos accionistas é muito difícil. Nesse sentido, a melhor opção era entrar uma nova direcção e seguir a nova visão do governo.

CNN – O atual Presidente, o sucessor do seu pai, quer, essencialmente, abrir o sector das telecomunicações em Angola, a concorrentes estrangeiros. Qual a sua opinião? Especialmente considerando que vai haver concorrência à sua empresa.

Isabel dos Santos – Eu saúdo sempre a concorrência e particularmente no sector das telecomunicações já existem três operadoras em Angola, esta vai ser a quarta operadora. Estatisticamente falando, é uma população de 24 milhões para quatro licenças. Há potencial de negócio? Provavelmente, sim. Pode não ser o melhor cenário de negócio, mas talvez exista certamente um.

CNN – O seu pai esteve no poder cerca de 38 anos, quase 40. Outro presidente africano com uma longa carreira em serviço, Rob Mugabe, do Zimbabwe, acaba de ser deposto. Qual é a sua reacção a isso e ao facto de estarmos a assistir, cada vez mais, à expansão da democracia em África?

Isabel dos Santos – É importante compreender que a paz em Angola começou em 2002. Temos tido paz durante os últimos 15 anos, mas o processo democrático em Angola começou de facto em 1992. Angola tem na verdade um bom histórico no que toca a eleições democráticas e processo democrático. O Presidente dos Santos podia ter entrado nas eleições se o tivesse querido e não quis. Ele decidiu não ir a eleições, por deliberação própria. Não havia nada na Constituição ou na lei que o impedisse. E podemos referenciar Angola como uma história muito positiva de uma transição positiva que foi pacífica. Houve eleições e podemos ver os resultados. Hoje temos um parlamento, o parlamento funciona. Temos um novo governo, o governo funciona. E estamos a progredir.